Melanie Pereira e Tila Chitunda: o documentário autobiográfico potenciado pelas viagens de autodescoberta

Authors

DOI:

https://doi.org/10.15847/obsOBS19420252535

Abstract

No cinema documental, a escrita de si apresenta-se como um estilo de criação no qual as experiências subjetivas do/a realizador/a e a sua maneira de apreender o mundo estão implicadas na narrativa elaborada na obra, de maneira explícita. Diferentemente de outros estilos documentais, nos quais o conteúdo tratado pode ser apresentado sem a presença sensível de um/a narrador/a, na escrita de si, o/a realizador/a é parte integrante da história apresentada, em diálogo ativo com o tema central do filme, ou o próprio tema. Tendo por base a apresentação de situações, memórias e/ou documentos de arquivo, sejam eles escritos, fotográficos ou videográficos, o cinema autobiográfico não oferece ao público um contato direto com os fatos históricos e sociais, mas antes sua leitura e reconstituição a partir de um olhar e de uma vivência singulares. Partindo dos pressupostos supracitados, e considerando o aumento na contemporaneidade de narrativas audiovisuais que se utilizam da escrita de si, destacadamente no cinema de mulheres, o presente artigo reflete sobre dois documentários realizados, respetivamente, por uma realizadora portuguesa e uma brasileira. Os filmes “Aos Meus Pais”, de Melanie Pereira (2018), e “Nome de Batismo – Alice”, de Tila Chitunda (2017), são obras cinematográficas que, para além da escrita de si, utilizam a deslocação como ferramenta para a construção de suas narrativas. Enquanto as cineastas se deslocam no tempo e no espaço, imergem em si mesmas, nas suas constituições e sensibilidades, produzindo um efeito nos filmes que pode ser entendido como espaço-entre tempos, línguas, culturas e territórios, mas, sobretudo, entre realidades. Nas narrativas apresentadas tanto por Melanie Pereira como por Tila Chitunda podemos assim ter contato com um real subjetivo, no qual o conhecimento potencialmente apreensível se traduz na experiência de cada uma das realizadoras perante o mundo e os eventos que as constituem como seres humanos.

Author Biographies

Julia Fernandes Marques, IArtes – Unidade de Investigação em Artes, Departamento de Artes, Universidade da Beira Interior

Julia Marques é bolseira de doutoramento da Fundação para a Ciência e Tecnologia com o projeto de tese de título "Desde Aquele Dia em que Deixei de ser Tua: O Roteiro Cinematográfico de Autorrepresentação como cuidado de si". Foi bolseira de investigação do projeto "Speculum: Filmar-se e Ver-se ao Espelho: O uso da escrita de si por documentaristas de língua portuguesa", financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (EXPL/ART-CRT/0231/2021). O projeto teve início em novembro de 2021 e finalizou em outubro de 2023. Doutoranda em Media Artes na Universidade da Beira Interior (2020-), prestou apoio à docência na unidade curricular de Produção e Organização de Eventos Culturais do curso de primeiro ciclo em Ciências da Cultura da UBI (2023). Parecerista da Revista científica TOMO (2023), é membro colaboradora do LabCom, Unidade I&D da Faculdade de Artes e Letras da UBI (2021-). Exerceu em 2022, 2023 e 2024 funções como membro do júri de pré-seleção do Porto Femme International Film Festival. Tem experiência com Marketing e Publicidade Empresarial on-line, exercendo atividades como gestão de redes sociais, comunicação on-line, gestão de dados e plataformas eletrónicas, criação de layouts, redação de texto publicitário, levantamentos fotográficos e videográficos, operação de drones e edição de fotografia e vídeo (2021-2022). Foi Professora Substituta durante dois anos no curso de Publicidade e Propaganda da Universidade Federal de Sergipe (UFS) (2018-2020), no qual lecionou disciplinas como Linguagem Audiovisual II e Produção Audiovisual II. Mestre em Cinema e Narrativas Sociais pelo Programa de Pós-graduação interdisciplinar da Universidade Federal de Sergipe (UFS), com investigação nos campos da política das imagens, análise fílmica, feminismo pós-colonial e etnografia, foi bolsista CAPES ao longo de todo o período de desenvolvimento do mestrado (2016-2018). Trabalhou em ONG no Brasil, com a realização de oficinas de artes, cineclubes e produção de documentários audiovisuais junto a populações campesinas, executando registos videográficos e fotográficos, recolha de entrevistas e edição de vídeos (2014-2017). Nesse período produziu uma série de documentários, em um total de doze, sendo três de longa-metragem. Licenciada em Cinema e Vídeo pela Faculdade de Artes do Paraná (CINETVPR), Escola de Artes da Universidade Estadual do Paraná (Unerspar) (2009-2013), foi também bolsista de Iniciação Científica (2010-2011) durante a licenciatura, assim como membro do projeto de extensão "Laboratório de Videodança" (2012), e Assistente de Câmara (2012), trabalhando com a gestão do parque de equipamentos de câmara da universidade, manutenção dos equipamentos, orçamentos de aquisição e monitoria técnica. É realizadora de filmes autorais de ficção, experimentais e documentais com ênfase em escrita de guião, direção cinematográfica, fotografia, iluminação e montagem. Tem artigos e capítulos de livros publicados, assim como realização de mediação, palestras e comunicações orais em eventos discutindo temáticas correlatas ao cinema de mulheres, cinema de autor e cinema contra-hegemónico. Iniciou estudos em Pintura em Tela em 2004 e de Fotografia em 2006, filmando o primeiro curta-metragem fomentado pela Prefeitura de Aracaju em 2007. Os seus interesses de investigação são cinema de mulheres, cinema autobiográfico, cinema de autor, análise fílmica e teorias do cinema.

Ana Catarina Santos Pereira, LabCom - Laboratório de Comunicação e Departamento de Artes da Universidade da Beira Interior,

Ana Catarina Pereira é Professora Auxilar na Faculdade de Artes e Letras da Universidade da Beira Interior e doutorada em Ciências da Comunicação, na vertente Cinema e Multimedia, pela mesma universidade. É directora do Mestrado em Cinema e investigadora do centro LabCom - Laboratório de Comunicação. Entre 2021 e 2023 foi investigadora responsável pelo projecto exploratório "Speculum: Filmar-se e Ver-se ao Espelho: O uso da escrita de si por documentaristas de língua portuguesa" (FCT). É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Salamanca. Trabalhou vários anos como jornalista e colaborou com as publicações Notícias Sábado e Notícias Magazine (Diário de Notícias), jornal I, revistas Focus, Up, Saber Viver e Happy Woman. Foi co-fundadora e directora da revista online Magnética Magazine (2008/10); directora do curso de Ciências da Cultura, da UBI (2017/19), coordenadora do GT de Estudos Fílmicos da Sopcom (2017/22) e representante da FAL na Comissão para a Igualdade (2019/22). É autora dos livros "A Mulher-Cineasta: Da arte pela arte a uma estética da diferenciação" e "Estudo do Tecido Operário Têxtil da Cova da Beira". Co-organizou as obras de "Cinema e Outras Artes", "Filmes (Ir)refletidos", "UBICinema 2007/2017", "Geração Invisível: Os novos cineastas portugueses", e "Colectânea de Poesia - Poetas do Fundão", entre outras, publicando regularmente em revistas científicas nacionais e internacionais. Já apresentou conferências, workshops e masterclasses em Brasil, Espanha, Inglaterra e Suécia, entre outros países. É curadora e júri de vários festivais de cinema, com especial destaque para a participação anual no Porto Femme Film Festival. Os seus interesses de investigação incidem em estudos feministas fílmicos, pedagogia nas artes e cinema em português.

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Published

2025-12-30

How to Cite

Fernandes Marques, J., & Santos Pereira, A. C. (2025). Melanie Pereira e Tila Chitunda: o documentário autobiográfico potenciado pelas viagens de autodescoberta. Observatorio (OBS*), 19(4). https://doi.org/10.15847/obsOBS19420252535

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